A composição de custo unitário é o coração de qualquer orçamento de obra. Ela detalha, serviço a serviço, quais insumos são necessários, em que quantidade e a que custo. É também o primeiro documento que fiscais do TCU analisam quando questionam uma proposta — e, em obra pública, cada linha precisa estar amparada em uma fonte que você consiga citar.
Criar composições corretas não é só uma questão técnica — é uma questão estratégica. E há uma ordem certa para fazer isso: primeiro procurar nas bases oficiais, e só criar a sua própria quando não houver alternativa.
O que é uma composição analítica
Uma composição analítica discrimina todos os recursos necessários para executar uma unidade de serviço. Ela responde à pergunta: “quanto custa, exatamente, fazer 1 m² de revestimento cerâmico?”
Os quatro elementos que compõem toda composição:
- Mão de obra — equipe necessária com os encargos sociais correspondentes
- Materiais — insumos com especificação, quantidade e percentual de perda
- Equipamentos — horas de utilização de máquinas e ferramentas
- Produtividade — rendimento da equipe por unidade de medida (m², m³, m, un)
Por que isso importa? O TCU audita as composições comparando-as com o SINAPI e com referências técnicas reconhecidas. Composições sem fundamentação são o principal argumento para impugnação ou glosa de pagamentos.
A hierarquia das fontes: use a base oficial antes de criar a sua
Este é o ponto que separa quem entende de orçamento público de quem improvisa. Em obra pública, você não começa criando composição — você começa procurando a composição pronta na base oficial certa. A base correta depende da fonte de financiamento da obra.
Obras com recursos federais
O Decreto nº 7.983/2013 define a ordem de referência:
- SINAPI — Sistema Nacional de Pesquisa de Custos e Índices da Construção Civil (mantido pela CAIXA com o IBGE), referência para obras e serviços de construção civil em geral (art. 3º)
- SICRO — Sistema de Custos Referenciais de Obras (mantido pelo DNIT), referência para infraestrutura de transportes (art. 4º)
A Lei 14.133/2021 (Nova Lei de Licitações), no art. 23, §2º, reforça e ordena essa lógica para o valor estimado:
- Inciso I — composição de custos unitários menores ou iguais à mediana do SINAPI (demais obras) ou do SICRO (infraestrutura de transportes)
- Inciso II — dados de pesquisa em mídia especializada, tabela de referência formalmente aprovada pelo Poder Executivo federal ou sítios eletrônicos especializados (com data e hora de acesso)
- Inciso III — contratações similares da Administração Pública nos últimos 12 meses
- Inciso IV — pesquisa na base nacional de notas fiscais eletrônicas
Obras com recursos estaduais ou municipais
Quando a fonte de financiamento não é federal, entram as bases estaduais aprovadas — como ORSE, SEINFRA/SINFRA, EMOP, CDHU, SUDECAP e SICRO estaduais, conforme o ente responsável. A lógica é a mesma: existe uma base oficial de referência, e ela vem antes de qualquer composição própria.
Guarde esta ideia: composição própria é exceção, não regra. Ela só se justifica quando o serviço não existe na base oficial aplicável à obra.
Como criar uma composição própria do jeito certo
Chegou a situação legítima: o serviço não está em nenhuma base oficial. Agora você pode criar a sua composição — mas há um jeito certo de fazer isso, e ele não é “montar do zero”.
1. Parta da composição oficial mais parecida
Nunca crie uma composição inteira do nada quando existe algo próximo na base. Pegue a composição oficial mais similar ao serviço e use-a como esqueleto: aproveite os coeficientes de produtividade e de consumo já validados e altere apenas o que realmente muda.
O próprio Decreto 7.983/2013 caminha nesse sentido (arts. 5º e 6º): quando o SINAPI/SICRO não cobrem o serviço, recorre-se a outros sistemas de referência, publicações técnicas especializadas ou pesquisa de mercado — e, sempre que possível, aproveitam-se os custos de insumos já constantes das bases oficiais.
Por que isso é decisivo? Porque toda composição própria exige uma justificativa — a memória de cálculo que explica o que foi feito, como foi feito e de onde veio cada número. E não há defesa técnica melhor do que dizer: “usei os coeficientes da composição X do SINAPI e ajustei apenas o item Y”. Você defende quase toda a peça com uma fonte oficial e concentra a justificativa em um único ponto.
2. Insumo que não existe? Entre com cotação de mercado
O caso mais comum de composição própria é quando falta um insumo específico — um material ou equipamento que a base não tem. A solução não é abandonar a base:
- Selecione a composição oficial mais próxima
- Mantenha toda a estrutura, coeficientes e demais insumos
- Substitua apenas o insumo faltante por uma cotação de mercado documentada (no mínimo três cotações)
- Justifique a troca na memória de cálculo
Assim você altera só o que precisa mudar, e não a composição inteira. Usar a base oficial pura não funcionaria (o insumo não existe nela), mas usar uma composição oficial muito similar e trocar um único item — com justificativa — é tecnicamente defensável.
3. Regra de ouro: toda permissão precisa de fonte
Aqui está o princípio que mantém sua composição a salvo de glosa: sempre que você afirmar que algo é permitido, cite a fonte.
- Vai usar a TCPO para os coeficientes de produtividade? Ela é uma publicação técnica especializada, prevista no art. 6º do Decreto 7.983/2013 e no art. 23, §2º, II, da Lei 14.133/2021.
- Vai definir o BDI e os encargos sociais? O parâmetro consolidado é o Acórdão 2622/2013-TCU-Plenário.
- Vai adotar um insumo por cotação de mercado? O respaldo está nos arts. 5º e 6º do Decreto 7.983/2013.
Sem fonte, é opinião. Com fonte, é defesa técnica. Em obra pública, a diferença entre uma proposta aceita e uma glosa costuma estar exatamente aí.
Criando uma composição no OrçaFascio
Com a fonte definida, o preenchimento no OrçaFascio segue esta sequência.
Passo 1 — Defina a unidade de medida
Antes de qualquer outro campo, determine a unidade correta do serviço:
- m² → revestimentos, pinturas, impermeabilizações
- m³ → estruturas de concreto, escavações, aterros
- m → tubulações, calhas, perfis metálicos
- un → esquadrias, pontos elétricos, peças pré-fabricadas
Errar a unidade invalida toda a composição — e é um erro mais comum do que parece.
Passo 2 — Monte a equipe produtiva
Insira os profissionais necessários com seus respectivos encargos sociais. O OrçaFascio já traz tabelas de encargos pré-configuradas conforme a legislação vigente.
Não modifique os percentuais de encargo sem justificativa técnica documentada. O regime tributário da empresa (Simples Nacional, Lucro Presumido ou Lucro Real) impacta diretamente as alíquotas — use o regime correto para cada contrato.
Passo 3 — Quantifique os materiais
Para cada insumo, preencha:
- Código SINAPI (quando existir)
- Quantidade por unidade de serviço — calculada a partir dos projetos
- Percentual de perda — nunca omita esse campo; o TCU questiona composições sem índice de perda declarado
As perdas variam conforme o material: cerâmica (8–12%), argamassa (15–20%), concreto (2–5%). Use os valores da literatura técnica ou histórico próprio documentado.
Passo 4 — Insira os equipamentos
Equipamentos são cobrados por hora produtiva — não por hora disponível. A diferença é importante:
- Para equipamentos pesados (retroescavadeiras, guindautos), consulte a tabela SICRO
- Para equipamentos de obras verticais (betoneiras, compactadores), use a tabela SINAPI
- Para ferramentas manuais, utilize percentual sobre a mão de obra (em geral, 2–5%)
Passo 5 — Valide a produtividade
A produtividade é o campo mais auditado de qualquer composição. O valor informado precisa ser tecnicamente justificável.
Fontes aceitas:
- Tabela TCPO (Tabelas de Composições de Preços para Orçamentos) — publicação técnica especializada
- Composições analíticas do próprio SINAPI
- Histórico de obras similares da empresa, documentado
Nunca invente produtividades. Uma produtividade fora da realidade é sinal imediato de inconsistência — e abre espaço para questionamento.
Como aplicar tudo isso na prática (com apoio de IA)
Todo esse processo — encontrar a composição oficial mais parecida, aproveitar seus coeficientes e ajustar só o necessário — é exatamente o tipo de tarefa repetitiva onde a IA acelera sem tirar o controle técnico do orçamentista.
No nosso guia sobre qual a melhor IA para orçamento de obras, detalhamos como escolher a ferramenta certa para cada etapa. No caso específico das composições, o OrçaFascio tem um recurso de inteligência artificial que cria composições de preço unitário a partir das composições de bases oficiais, e faz a substituição por correlação semântica — ou seja, encontra na base a composição oficial que mais se aproxima do serviço descrito, mesmo quando o texto não é idêntico.
Na prática, é a IA entregando pronto o “esqueleto” oficial que a sua justificativa precisa: você parte de uma composição amparada em base reconhecida e concentra o ajuste no ponto que realmente muda — o insumo por cotação, o coeficiente específico. Menos tempo montando do zero, mais tempo defendendo a peça com fonte.
Erros que custam caro
Os erros mais comuns em composições auditadas pelo TCU:
- Omitir o percentual de perdas de material — presumido como zero, o que não é realista
- Encargos sociais incompatíveis com o regime tributário — Simples Nacional tem alíquotas menores que Lucro Real
- Composição sem referência no SINAPI sem cotação de mercado — itens extra-SINAPI precisam de, no mínimo, três cotações documentadas
- Criar composição própria existindo item na base oficial — inverte a hierarquia do Decreto 7.983/2013 e da Lei 14.133/2021, e enfraquece a proposta
- Informar produtividade ou coeficiente sem citar a fonte — sem memória de cálculo com origem, o item fica indefensável
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